RSS Feed

Tag Archives: Marcha

Levo no peito um quadrado vermelho e idéias 3D na cabeça

Eu tenho um imã absurdo que me arrasta a situações de convulsão social. Em 2005, por exemplo, bastou em desembarcar em Cracóvia para que o papa João Paulo II, que vinha no morre não morre há meses, finalmente falecesse. (O que foi suficiente para eu atribuir a mim mesma a culpa por tão ilustre morte e cogitar não ir a Cuba para não pôr em risco a vida do estimado Comandante).

Eu poderia enunciar vários outros episódios como este, mas essa introdução ia ficar muito longa e o que importa é o agora.

Estou em Montreal e desde que aqui cheguei há um símbolo que ocupa todas as conversas, páginas e telas do Quebec: o quadrado vermelho (il carré rouge/the red square). Todo mundo já deve saber, mas o quadradinho simboliza a greve dos estudantes contra o aumento das taxas escolares. Diariamente milhares de cidadãos carregam consigo o quadrado vermelho em seus protestos contra as medidas de “ajuste fiscal” e no debate sobre que educação a atual sociedade quebequense quer para os seus.

Aqui tem um videoclip bacana feito por um grupo de estudantes (1 plano sequência! /!):

 

Em resposta, o governo editou uma lei absurda (Bill 78) que restringe o direito de manifestação e tem resultado na prisão diária de centenas de manifestantes.

A notícia da nova lei me fez voltar um mês. Em abril agora, estive em Toronto para o Hot Docs e o cineasta homenageado nesta edição era o quebequense Michel Brault, um absoluto desconhecido para mim até então. Por uma dessas coisas que logo passamos a chamar “ironia do destino”, o primeiro filme dele que eu vi foi o “Les Ordres”. Filme extraordinário que joga com os limites entre ficção e realidade para revelar um episódio bastante triste da história do Quebec: a edição do Ato de Guerra que permitiu, de uma hora para outra, que o governo prendesse centenas e centenas de pessoas à revelia do chamado “devido processo legal”. Brault, que com este filme levou a Palma de Ouro em Cannes, revela a agonia dos indivíduos presos sem saber por quê e a dificuldade de encontrar saída quando não há portas ou janelas por onde gritar. Algo como “O Processo” de Kafka. O filme de Brault é de 1977. Os manifestantes de Montreal estão sendo presos agora, em 2012.

“Quanto é 2012 menos 1977?” foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando eu e meu amigo Daniel Castro estávamos saindo de um Subway (a rede de fast food  – hã? – “saudável”) meio decadente no centro de Montreal nessa última terça-feira e nos deparamos com uma grande confusão. Gente correndo por todos os lados. Helicópteros. Polícia. Barulho de bombas. Nesse dia, a greve completou 100 dias e mais de 250 mil pessoas foram às ruas.

Eu adoro manifestações. Me sinto mais viva nas marchas. Eu acredito em um outro mundo possível. Participei ativamente nos primeiros 4 fóruns sociais mundiais. Caminhei 23 km na marcha italiana contra a invasão do Afeganistão e do Iraque. Fui em várias paradas do orgulho gay pelo mundo. Em várias manifestações de greve dos professores brasileiros e de apoio ao MST. Em defesa do aborto em Gênova quando houve o plebiscito. E no famoso 1º de Maio em Cuba. Eu marcho. Mas ali, saindo do Subway, às 10h da noite, a única coisa que eu queria era encontrar um modo de chegar no Cineplex e ver The Avengers em 3D.

O prédio, um edifício de vários andares, estava lotado de jovens que alheios ao mundo que explodia lá fora, faziam filas e filas pela pipoca e para ver super heróis, gente bonita e explosão, muita explosão.

Eu tava ali, no meio deles. No outro lado. Esperando também por heróis e soluções fáceis. E não pude conter uma gargalhada quando depois de todos os trailers, apareceu a logomarca da cadeia de cinema dizendo literalmente: “Cineplex – Escape with us”. Assim mesmo: ESCAPE. Mas, parece que só eu achei graça disso.

Com meu quadradinho vermelho pregado no peito, eu vi o Hulk, o Thor, o Homem de Ferro, o Capitão América, e a Scarlett Johansson se aliar à Nasa (?!?!) para defender o mundo de um ataque do irmão do Thor, o Loki, que tinha todo o poder do mundo mas queria justo esse planetinha sem graça aqui. O Daniel riu quando eu perguntei por que o Batman e o Spiderman não estavam juntos nessa. Eu não entendo nada de HQs. Nem de entretenimento de massa. Mas, me interesso pelo 3D como linguagem.

E me recuso a acreditar que essa tecnologia sirva só para isso: ESCAPAR do que está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes. Eu não vi Avatar, nem a maioria dos lançamentos milionários do mercado, então posso estar sendo injusta. Mas o que me deixou mais impressionada não era a imagem e sim o som. Permanentemente retumbante e ensurdecedor. Em algum momento já não importava mais nada. Os do “bem” iam ganhar. Era inevitável. Mas eu só pensava num dos anúncios feito antes dos trailers sobre uns assentos especiais no cinema, os chamados D-Box, que além de possibilitar uma outra dimensão sensorial da experiência (o chamado sacudir das cadeiras) permite que o espectador ajuste o volume (AUMENTANDO ou reduzindo, conforme melhor lhe aprouver).

Eu quero um dia sentar numa cadeira dessas para saber como é ver um filme num liquificador. Mas enquanto isso não acontece, fiquei pensando no EstereoEnsaios curta com tecnologia 3D4K que até agora é a melhor coisa que vi em 3D desde que voltei de Cuba, no meio do ano passado. O filme, realizado por pesquisadores brasileiros e exibido pelo Festival CulturaDigital.Br no ano passado, se utiliza da estereoscopia para explorar as ruas do Rio de Janeiro. Em uma reflexão interessante sobre a cidade e seus clichês, mas, sobretudo, em um estimulante exercício de metalinguagem sobre o cinema mesmo.

Aqui em Montreal existe a Sociedade de Arte e Tecnologia – SAT que desenvolve projetos de exploração de linguagem audiovisual em uma estrutura impressionante que abarca, inclusive, um cinema 360 graus numa semi-esfera arquitetônica. Estive recentemente no SATFEST, o festival para apresentar os recentes trabalhos dos artistas residentes na casa. Por mais de 1h, acompanhei, impressionada o programa que incluía imersões auditivas, animações 3D (sem necessidade de uso de óculos!), criações audiovisuais estroboscópicas e outras experimentações. Uma viagem psicodélica-sensorial bem legal!

Mas, devo confessar que depois de vivenciar aquilo tudo (talvez tanto quanto a parafernália sonora dos Vingadores) a sensação que eu tive foi “wow. Que loucura! Bora tomar uma cerveja”. E pronto.

Com EstereoEnsaios foi diferente. O uso da tecnologia ali me estimulou a pensar em novas fronteiras para as histórias que quero contar. Na função da fotografia e da mise-en-scène, principalmente para explorar a profundidade de campo e levar o espectador para dentro do quadro. É isso, o EstereoEnsaios me fez pensar.

Por razões várias que podem ser classificadas todas baixo o mesmo tag “fora de sincro”, eu não pude ver Pina nem A Caverna dos Sonhos Esquecidos. Eu simplesmente não estava nas cidades certas, nas horas certas para ver estes filmes em 3D de dois diretores que admiro muito: Wenders e Herzog. Filmes que certamente contribuiriam muito para essa minha reflexão sobre quadrados e pontos de fuga. E que agora mesmo me fazem pensar na dificuldade de acesso desse tipo de obra e na necessidade de espaços de exibição permanente de obras 3D de cunho, digamos, mais autoral. (Eu queria ver os filmes dos anos 50, o filme do Hitchcock e tantas outras coisas em 3D).

Enquanto eles não passam em algum outro festival, eu fico aqui, com meu quadradinho vermelho pendurado no peito e idéias em 3D saindo da minha cabeça.

Obs. Termino esse texto exatamente às 8h.Todo dia a essa hora, os vizinhos protestam com um mini panelaço contra a Bill 78. O som dos golpes de ferro é o que estou ouvindo agora mesmo. Saio da frente do meu PC velho. Pego uma frigideira e uma colher. Abro a porta da rua.