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Tag Archives: documentário

De cliques e histórias: o “futuro” do documentário

Escrever é sempre um ato de comunicação. Assim como fazer filmes. Nos cursos de preparação para apresentação de projetos para potenciais investidores, a mesma pergunta é feita uma e outra vez: por que isso interessaria a mais alguém?

A pergunta serve para mudar o eixo da ação. Para sentarmos do outro lado – no meu caso, da tela – e avaliar até que ponto vale a pena investir (tempo, energia e dinheiro) numa ideia.

Sendo sincera, eu não pensei em nada disso quando me inscrevi para participar de um novo documentário da NFB: o Au Suivant. Dirigido por Danic Champoux, o projeto pretende entrevistar 150 pessoas que vivem em Montreal sobre os mais diversos temas: família, sonhos, passado, futuro, felicidade, absurdo, memórias, para compor um mosaico humano sobre a cidade nos dias de hoje. Eu só queria ver como era um set numa das mais interessantes produtoras do mundo!

Eu já tinha me esquecido disso, quando me chamaram para participar hoje de uma entrevista. O que eu não sabia era que eu teria que responder tudo em francês. Falar sobre tudo que nos faz vivos já é bastante complicado na língua que nascemos sabendo, mas em um idioma que você conjuga basicamente (e por basicamente entenda-se: sujeito + verbo em qualquer tempo + objeto) faz qualquer um parecer um Neandertal.

Eu até agora não sei bem o que eu falei quando me perguntaram por que eu quis ser cineasta. E acho que nem o Champoux, nem ninguém da equipe entendeu. Mas se eu tivesse tido um pouquinho mais de tempo para articular minha resposta eu diria algo como para sonhar livremente. Não que o Direito não liberte. Em muitos casos é a única ferramenta de libertação, mas o cinema (talvez melhor dito, o audiovisual) permite algo que o Direito raramente permite: experimentar impunemente. (ou quase!)

Talvez por isso, a conversa semi-gutural desta manhã me fez pensar nos documentários interativos que estão tão na moda atualmente e sobre os quais tenho pensado muito desde o Festival Internacional da Cultura Digital.Br quando levamos para o Rio de Janeiro o Hugues Sweeney, principal produtor de conteúdos interativos da NFB.

O Au Suivant será um documentário convencional. Talvez um dos últimos que a NFB vai produzir já que a instituição está sofrendo com os cortes de verbas do governo conservador do Canadá. Espera-se para o segundo semestre uma reformulação que centrará os esforços de produção nas chamadas novas mídias, sobretudo nos conteúdos ditos interativos.  (E quem não tem nem ideia do que seja um documentário interativo terá nos próximos parágrafos uma lista de links para navegar e explorar essa nova linguagem audiovisual)

Tenho participado de fóruns sobre o “futuro do cinema” e parece haver um certo consenso de que a interação é a bola da vez. Esse pelo menos era o tom dominante no último Hot Docs, em Toronto, no mês passado, onde conheci vários projetos muito interessantes como o Mapping Main Street: projeto colaborativo sobre as diversas “Main Street” (algo como Ruas 7 de setembro no Brasil!) espalhadas por todo o território dos Estados Unidos.

Os desenvolvedores desta plataforma estão agora criando uma ferramenta de curadoria e remix muito interessante o Zeega Project, que permite jogar com material recoletado em Youtube, Flickr, Vimeo, Sound Cloud etc.

No Hot Docs também estava o pessoal da Secret Location, agência multipremiada de produção de conteúdo interativo responsável por projetos como o grandioso D-Day to Victory, documentário interativo que faz uma reconstrução impressionante dos cenários da 2ª Guerra Mundial para revelar as memórias dos veteranos de guerra que ainda estão vivos no Canadá.

A agência apresentou ainda uma campanha bem humorada para arrecadar recursos para tratamento de um paciente com câncer no testículo: o Stanfield’s: The Guy At Home In His Underwear. Uma mistura de Big Brother com Facebook que rendeu ao paciente U$ 25 mil dólares em 7 dias!!

Vindo do outro lado do mundo, mais especificamente da Austrália, John Mac Farlane apresentou os projetos da SBS Documentary: Africa do Australia, sobre imigração africana para aquele país, Goa Hippy Tribe, sobre o movimento hippie e o The Block: stories from a melting place. Este último dedicado a “recuperar” a história de um bairro de Sidney tradicionalmente indígena que atualmente é uma das áreas mais violentas da cidade. Para isso, eles armaram uma visualização 360 graus do bairro, tipo Google Maps, e estão permitindo que os moradores do bairro insiram suas histórias, georreferenciando no mapa criado. O interessante disso é que segundo o Mac Farlane, essa iniciativa já teve um impacto positivo no nível de criminalidade na área em um interessante processo de reconhecimento dos moradores como pertencentes àquela localidade. Ideia boa para o pessoal do Baixo Centro em São Paulo.

Um monte de coisa legal, mas todo mundo só falava mesmo do último projeto interativo da NFB: o Bear 71 que parece ter causado frisson com uma mega instalação multimídia na última edição de Sundance. O grande diferencial é que a plataforma desenvolvida por aqui conecta os diferentes “usuários” e os expõe tal qual uma câmera de vigilância, invertendo a lógica de “bicho de zoológico” onde espectador passa a ser também objeto de interesse dos demais usuários da rede. A Point of View, revista dedicada só a documentários e que não está disponível na web, dedicou uma ampla reportagem sobre a experiência de navegar no projeto.

No vídeo a seguir, de 2 minutos, dá para entender um pouco melhor como é este projeto:

Além disso tudo, os participantes do Hot Docs elegeram seus documentários interativos favoritos e além do próprio Bear 71, Pine Point,  God’s Lake Narrow e Take This Lollipop, que não é exatamente um documentário,  foram os mais citados.

Tudo muito bonito, bem feito e “entretenido” (para usar uma expressão chilena). Mas devo confessar que nada disso realmente me parece “o futuro do documentário”. Pelo menos não para o tipo de espectador que eu sou. Por uma questão crucial: como é que eu tenho paciência para ver um filme de 3 horas e praticamente não consigo deter minha atenção por mais de 10 minutos em nenhum desses projetos? Ainda que muitos toquem em temas que me são caros: revitalização dos centros urbanos, preservação ambiental, história ou sentido de comunidade…

Acho que a grande questão aqui tem a ver com o formato. Todos esses projetos são norteados por uma apresentação descritiva da realidade onde alguém conta para você, espectador, da forma mais didática possível, o que está acontecendo. E no meio do caminho há um leque de opções que te dão mais e mais informação, numa lógica de expansão de conteúdo muito parecida com a própria navegação na rede. Exigindo, inclusive, cliques para avançar na narrativa. A diferença aqui é que alguém, no caso os autores do projeto, te pega pela mão e te conduz nessa estranha viagem que é compreender o mundo à sua volta. O que não deixa de ser um paradoxo já que o legal da rede, e por rede aqui digo internet, é que cada um é livre para ir onde quiser num universo de possibilidades infinitas.

Fico aqui pensando qual a diferença, em termos de conteúdo, com os documentários que me levam até o cinema. Ou seja, aqueles que me fazem sair de casa, pegar um ônibus/metrô, pegar fila, pagar e sentar para não fazer nada mais que observar.

Eu não sei. Mas talvez seja exatamente isso: liberdade. Os filmes que eu vou assistir me provocam, mas ao mesmo tempo me deixam livres para pensar o que eu quiser, do jeito que eu quiser, na hora que eu quiser, sem tentar me explicar muito o que está acontecendo.  São esses filmes que muitas vezes não saem da minha cabeça por anos e anos depois de terminada a sessão. Como esses dois aí embaixo:

Obs. No Hot Docs conheci uma pesquisadora do Open Doculab do MIT, a Katie Edgerton, que publicou recentemente um post com reflexões sobre o futuro dos documentários.

Obs.2: Se você quiser saber mais do Hot Doc, aqui dá para acompanhar as conferencias do ano passado!

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Levo no peito um quadrado vermelho e idéias 3D na cabeça

Eu tenho um imã absurdo que me arrasta a situações de convulsão social. Em 2005, por exemplo, bastou em desembarcar em Cracóvia para que o papa João Paulo II, que vinha no morre não morre há meses, finalmente falecesse. (O que foi suficiente para eu atribuir a mim mesma a culpa por tão ilustre morte e cogitar não ir a Cuba para não pôr em risco a vida do estimado Comandante).

Eu poderia enunciar vários outros episódios como este, mas essa introdução ia ficar muito longa e o que importa é o agora.

Estou em Montreal e desde que aqui cheguei há um símbolo que ocupa todas as conversas, páginas e telas do Quebec: o quadrado vermelho (il carré rouge/the red square). Todo mundo já deve saber, mas o quadradinho simboliza a greve dos estudantes contra o aumento das taxas escolares. Diariamente milhares de cidadãos carregam consigo o quadrado vermelho em seus protestos contra as medidas de “ajuste fiscal” e no debate sobre que educação a atual sociedade quebequense quer para os seus.

Aqui tem um videoclip bacana feito por um grupo de estudantes (1 plano sequência! /!):

 

Em resposta, o governo editou uma lei absurda (Bill 78) que restringe o direito de manifestação e tem resultado na prisão diária de centenas de manifestantes.

A notícia da nova lei me fez voltar um mês. Em abril agora, estive em Toronto para o Hot Docs e o cineasta homenageado nesta edição era o quebequense Michel Brault, um absoluto desconhecido para mim até então. Por uma dessas coisas que logo passamos a chamar “ironia do destino”, o primeiro filme dele que eu vi foi o “Les Ordres”. Filme extraordinário que joga com os limites entre ficção e realidade para revelar um episódio bastante triste da história do Quebec: a edição do Ato de Guerra que permitiu, de uma hora para outra, que o governo prendesse centenas e centenas de pessoas à revelia do chamado “devido processo legal”. Brault, que com este filme levou a Palma de Ouro em Cannes, revela a agonia dos indivíduos presos sem saber por quê e a dificuldade de encontrar saída quando não há portas ou janelas por onde gritar. Algo como “O Processo” de Kafka. O filme de Brault é de 1977. Os manifestantes de Montreal estão sendo presos agora, em 2012.

“Quanto é 2012 menos 1977?” foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando eu e meu amigo Daniel Castro estávamos saindo de um Subway (a rede de fast food  – hã? – “saudável”) meio decadente no centro de Montreal nessa última terça-feira e nos deparamos com uma grande confusão. Gente correndo por todos os lados. Helicópteros. Polícia. Barulho de bombas. Nesse dia, a greve completou 100 dias e mais de 250 mil pessoas foram às ruas.

Eu adoro manifestações. Me sinto mais viva nas marchas. Eu acredito em um outro mundo possível. Participei ativamente nos primeiros 4 fóruns sociais mundiais. Caminhei 23 km na marcha italiana contra a invasão do Afeganistão e do Iraque. Fui em várias paradas do orgulho gay pelo mundo. Em várias manifestações de greve dos professores brasileiros e de apoio ao MST. Em defesa do aborto em Gênova quando houve o plebiscito. E no famoso 1º de Maio em Cuba. Eu marcho. Mas ali, saindo do Subway, às 10h da noite, a única coisa que eu queria era encontrar um modo de chegar no Cineplex e ver The Avengers em 3D.

O prédio, um edifício de vários andares, estava lotado de jovens que alheios ao mundo que explodia lá fora, faziam filas e filas pela pipoca e para ver super heróis, gente bonita e explosão, muita explosão.

Eu tava ali, no meio deles. No outro lado. Esperando também por heróis e soluções fáceis. E não pude conter uma gargalhada quando depois de todos os trailers, apareceu a logomarca da cadeia de cinema dizendo literalmente: “Cineplex – Escape with us”. Assim mesmo: ESCAPE. Mas, parece que só eu achei graça disso.

Com meu quadradinho vermelho pregado no peito, eu vi o Hulk, o Thor, o Homem de Ferro, o Capitão América, e a Scarlett Johansson se aliar à Nasa (?!?!) para defender o mundo de um ataque do irmão do Thor, o Loki, que tinha todo o poder do mundo mas queria justo esse planetinha sem graça aqui. O Daniel riu quando eu perguntei por que o Batman e o Spiderman não estavam juntos nessa. Eu não entendo nada de HQs. Nem de entretenimento de massa. Mas, me interesso pelo 3D como linguagem.

E me recuso a acreditar que essa tecnologia sirva só para isso: ESCAPAR do que está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes. Eu não vi Avatar, nem a maioria dos lançamentos milionários do mercado, então posso estar sendo injusta. Mas o que me deixou mais impressionada não era a imagem e sim o som. Permanentemente retumbante e ensurdecedor. Em algum momento já não importava mais nada. Os do “bem” iam ganhar. Era inevitável. Mas eu só pensava num dos anúncios feito antes dos trailers sobre uns assentos especiais no cinema, os chamados D-Box, que além de possibilitar uma outra dimensão sensorial da experiência (o chamado sacudir das cadeiras) permite que o espectador ajuste o volume (AUMENTANDO ou reduzindo, conforme melhor lhe aprouver).

Eu quero um dia sentar numa cadeira dessas para saber como é ver um filme num liquificador. Mas enquanto isso não acontece, fiquei pensando no EstereoEnsaios curta com tecnologia 3D4K que até agora é a melhor coisa que vi em 3D desde que voltei de Cuba, no meio do ano passado. O filme, realizado por pesquisadores brasileiros e exibido pelo Festival CulturaDigital.Br no ano passado, se utiliza da estereoscopia para explorar as ruas do Rio de Janeiro. Em uma reflexão interessante sobre a cidade e seus clichês, mas, sobretudo, em um estimulante exercício de metalinguagem sobre o cinema mesmo.

Aqui em Montreal existe a Sociedade de Arte e Tecnologia – SAT que desenvolve projetos de exploração de linguagem audiovisual em uma estrutura impressionante que abarca, inclusive, um cinema 360 graus numa semi-esfera arquitetônica. Estive recentemente no SATFEST, o festival para apresentar os recentes trabalhos dos artistas residentes na casa. Por mais de 1h, acompanhei, impressionada o programa que incluía imersões auditivas, animações 3D (sem necessidade de uso de óculos!), criações audiovisuais estroboscópicas e outras experimentações. Uma viagem psicodélica-sensorial bem legal!

Mas, devo confessar que depois de vivenciar aquilo tudo (talvez tanto quanto a parafernália sonora dos Vingadores) a sensação que eu tive foi “wow. Que loucura! Bora tomar uma cerveja”. E pronto.

Com EstereoEnsaios foi diferente. O uso da tecnologia ali me estimulou a pensar em novas fronteiras para as histórias que quero contar. Na função da fotografia e da mise-en-scène, principalmente para explorar a profundidade de campo e levar o espectador para dentro do quadro. É isso, o EstereoEnsaios me fez pensar.

Por razões várias que podem ser classificadas todas baixo o mesmo tag “fora de sincro”, eu não pude ver Pina nem A Caverna dos Sonhos Esquecidos. Eu simplesmente não estava nas cidades certas, nas horas certas para ver estes filmes em 3D de dois diretores que admiro muito: Wenders e Herzog. Filmes que certamente contribuiriam muito para essa minha reflexão sobre quadrados e pontos de fuga. E que agora mesmo me fazem pensar na dificuldade de acesso desse tipo de obra e na necessidade de espaços de exibição permanente de obras 3D de cunho, digamos, mais autoral. (Eu queria ver os filmes dos anos 50, o filme do Hitchcock e tantas outras coisas em 3D).

Enquanto eles não passam em algum outro festival, eu fico aqui, com meu quadradinho vermelho pendurado no peito e idéias em 3D saindo da minha cabeça.

Obs. Termino esse texto exatamente às 8h.Todo dia a essa hora, os vizinhos protestam com um mini panelaço contra a Bill 78. O som dos golpes de ferro é o que estou ouvindo agora mesmo. Saio da frente do meu PC velho. Pego uma frigideira e uma colher. Abro a porta da rua.